segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Cabelos Molhados

 “Sonho que se sonha só é um sonho que se sonha só. Sonho que se sonha junto é um sonho que se realiza junto.”

Cabelos Molhados

Era um palito de fósforo que se acendia naquela noite chuvosa. E aquele cheiro de terra molhada se misturava com a pólvora, com a madeira, com um fio de cabelo queimado pela distração, com a palha úmida e o tabaco barato. Era noite. Como não haveria de ser!? Em uma esquina quase deserta toda a proteção que o jovem poeta tinha era um telhado curto que só abrigava da chuva quando o vento soprava na direção contrária.

Momentos assim funcionam como um termômetro da felicidade de um homem.

O poeta sentiu frio. Então basta dar uns pulinhos por um minuto. E a mesma água que causava desconforto, agora vira um presente capaz de refrescar o corpo e saciar a sede.

A chuva não para.
Ainda sobram uns dois cigarros. E uma descoberta nada surpreendente: os fósforos estão encharcados. - “eu sabia que esse estilo Macgayver não ia funcionar por muito tempo” – Era idiotice insistir em riscar a caixinha (mas é claro que ele tentou por um bom tempo).

A chuva não vai parar.
Um, dois, três e... Correr na chuva é tão bom quanto pizza gelada. Seria melhor se fosse quente, mas perderia toda a graça. Saltar enxurradas como se fossem rios amazônicos. Bueiros que se transformam em precipícios. Marquises que se transformam em Oasis. E a casa... nossa casa... a fortaleza mais resistente do mundo. Nem um dragão de Tolkien seria capaz de destruir a casa de um poeta depois de um banho de chuva.

O banho quente.
Quando mais um homem tem a oportunidade de agradecer pela água que atravessa vales, montanhas e cidades inteiras para chegar exatamente sobre a sua cabeça, abastecida pelo calor de uma eletricidade que provavelmente percorreu um caminho ainda mais longo. Quantos outros homens trabalharam por esse grandioso momento de felicidade. Quantos poetas mais....

E ele até pode se deitar agora, mas também pode desfrutar de um bom chá.

Afinal, tem fósforos secos na gaveta da cozinha, e um bom livro no criado mudo.

Bruno Leal

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